quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Mundo pós-Guerra Fria: os desafios da Nova Geração


O grande fator que caracteriza este novo período do mundo pós-Guerra Fria, é o abalo sobre a teoria “dialética” do marxismo, na medida em que a suposta autoridade do proletariado sai de cena –por suposto, não sem saudosismos, revisionismos, esperanças vagas e tentativas de “reciclagem”.

Doravante, se recolocam conflitos de valores de maior contraste, o nacionalismo e a própria espiritualidade se relegitimam, mesmo entre arraigados e atávicos sectarismos, razão pela qual as “Cruzadas” são evocadas de todos os lados da parte dos mais fanáticos, numa tentativa anacrônica de reeditar uma Idade Média tecnológica.

Contudo, o mundo também redespertou do seu sono ideológico com novas urgências, já não tanto socializante, mas ambientalista. Tem-se aqui um amplo questionamento vital sobre a sustentabilidade, argumento diante do qual nada e nem ninguém podem se calar. Nisto, se irmanam novas idéias com práticas ancestrais, trazendo à tona as aspirações da “cultura alternativa” e das sociedades tradicionais.
Este ambientalismo não passa ao largo do nacionalismo e da espiritualidade. A depredação da Natureza é muitas vezes fruto da exploração imperialista e da alienação existencial sob a febre do consumismo. Daí ser legítima a luta ambiental sob estas bandeiras que velam por uma das mais profundas bases sociais da nação.
Tudo isto permite reunir novas forças sociais e potencializa um novo campo de conflito de idéias e de valores, recolocando todavia as coisas numa ordem evolutiva ascendente, e não meramente “materialista” e redundante, muito embora grandes potências de ideologia materialista sigam colocando em risco toda a ordem natural.

Alvo direto dos interesses econômicos e da ideologia religiosa imperiais, o Islã se perfila como um aliado natural nas novas lutas de evolução cultural, muito embora deva amadurecer a fim de facilitar o seu trato num mundo globalizado. Embora desunido (como o Cristianismo também é), o Islã é naturalmente uma potência cultural própria, cuja influência cresce no silêncio através da expansão demográfica e da conquista muitas vezes sutil de novas nações.

Contudo, o Islã não será o único e nem o principal ator a sentar-se na mesa das negociações do mundo pós-Guerra Fria, uma vez que os seus interesses estão algo delimitados e a sua área de influência também –pese a sua rápida expansão, inclusive na Europa ocidental.

Vórtice Alternativo - a nova “Esquerda”


Com a homogeneização da política mundial em torno do liberalismo pós-Guerra Fria, os atores sociais ditos “populares” passaram a sofrer certa crise de identidade, deixando um desequilíbrio na ordem política internacional.

Podemos dizer que a nova configuração reivindicativa, começou a adquirir mais ampla visibilidade com o Fórum Social Mundial, embora tenha dado já um sopro de vida nos anos anteriores, marcado pela “Rio 92”, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. Vale notar que este mesmo ano ainda foi marcado no Brasil pela vinda “discreta” do Dalai Lama (sob as sanções da China) e pelo importante Movimento 11:11, um “portal espiritual” impactante ali celebrado, determinando tudo isto a tríade paradigmática Ecologia-Espiritualidade-Fraternidade que sintetiza os novos ideais.

Assim, aos poucos se foi buscando na reserva ideológica do Movimento Alternativo, caminhos para começar a se reorganizar uma nova força social atuante. E aqui, é preciso ficar claro que se trata já de uma outra forma de organização, até com novos valores em pauta, ao menos substancialmente, e não de simples “renascimento” das velhas forças esquerdistas sob uma nova capa, muito embora alguns até possam pretender tal coisa. Isto se prova pela origem mística e pela influência étnica destas novas formações, arraigadas muitas vezes no conceito de nação tradicional e de comunidade, assim como de espiritualismo e de ecologia, embora com maior abertura para o mundo moderno.

Pois na verdade, não são apenas as camadas “populares” que sentiram-se desnorteadas. Não estamos nos referindo com isto, é claro, à torcida do Capitalismo que triunfou por um momento ali. E sim, ao fato de que, reunidos aos movimentos populares, existem comumente algumas elites intelectuais e espirituais, ligadas à ideologias nacionalistas e religiosas. Tal coisa é uma característica do Terceiro Mundo.

Estas forças nobres e religiosas, de idealistas e místicos em busca de finalmente gerar o seu grande momento histórico, no bojo do qual emergirão os novos paradigmas da Ciência unificada com a Filosofia, muitas vezes são usadas por partidos ou membros de ideologias materialistas infiltrados, tratadas por estes como se fossem “inocentes úteis” sem maior organização e história, já que representam efetivamente, todavia, tendências-ainda-em-formação.

Vale cuidar-se, inclusive contra os famosos agentes “melancias”, materialistas/vermelhos por dentro, e ecologistas/verdes por fora: não devemos ter a ilusão de que as forças materialistas “desistiram” dos seus intentos; até porque elas pretendem ver em Cuba e na China alguma sobrevida de esperança. Muita gente anda é desesperada por buscar novos caminhos para velhas causas –embora Jesus tenha dito que “não se põe vinho novo em odres velhos”-, mesmo que de forma escamoteada, migrando de uma ideologia para outra, às vezes mais na aparência que de fato. A ecologia é uma boa forma moderna de lutar contra o Capitalismo.
As novas forças sociais é que necessitam encontrar os seus próprios caminhos, e evitar então armadilhas que as podem levar para o abismo de um passado que está enterrado, sob as mãos tortas de lideranças improvisadas advindas destes setores materialistas que apenas querem usar os desavisados para as suas próprias causas. Os novos caminhos são nacionalistas e espiritualistas a um só tempo, assim como ambientalistas. As palavras “materialismo” e “liberalismo”, adquirem cada vez menor função no (novo) mundo.

Construindo uma nova identidade


É preciso depurar, portanto, o quadro de ilegitimidade que compromete os resultados e gera confusões nos movimentos sociais –basta ver o desprezo e as traições que sofrem nos seus valores ambientalistas, nacionalistas e espirituais, durante as alianças que intentam fazer com os partidos materialistas, quando este chegam finalmente ao poder.

É possível, inclusive, senão diminuir os conflitos, ao menos alterar as relações com as forças materialistas, dentro de configurações mais razoáveis que prometam a superação do conflito civil, desconfigurando o lamentável maniqueísmo materialismo-espiritualismo mantido pelos valores mais limitados das forças materiais (coisa esta que apenas pode ser mudada com realismo, portanto, “desde cima” ou a partir das classes mais elevadas), para restar apenas, o “saudável” e libertador conflito entre o nacionalismo e o imperialismo, então melhor definido e fortalecido pela união interna.

Eis que os novos cenários da revolução, contemplam outros métodos de transformação. É natural pensar que uma revolução proletária demande a violência porque, afinal, é uma involução cultural e se está tratando de reduzir diretamente privilégios, dentro do arco descendente da evolução das Idades. Porém, quando se trata já de uma evolução cultural, dentro do arco ascendente da evolução cultural e das ascensão das classes, então deve ser suficiente a persuasão e as medidas “alternativas” avançadas.

O movimento proletário já teve a sua chance histórica, inclusive como Ditadura de ampla gestão, mas de duvidoso sucesso. Hoje, o trabalhador deve apoiar outras classes com sua força-de-trabalho, e se possível aspirar por melhorar social e culturalmente. Em breve, a burguesia seguirá pelo mesmo caminho, pois sob a crise ambiental, também será obrigada a reconhecer no Capitalismo um monstro a ser enterrado pela evolução, tal a força destrutiva de alienação destes sistemas materialistas.

A expressão “vórtice alternativo”, não deve significar meramente uma tendência out sider desvinculado do “sistema”. Note que a expressão “movimento alternativo” é, inclusive, paralela à de “dialética histórica” empregada no marxismo. Na verdade, aquilo que está realmente em jogo, é toda uma ampla mudança de valores, e não apenas de costumes. É a ascensão das classes idealistas-espiritualistas, amantes da vida interior e da ordem superior, que está em jogo. Para isto, tais pessoas-de-bem, devem manifestar um sentido de hierarquia, de teor algo espiritual, a fim de servir tanto o baixo (povo) como o alto (mestres).

A grande e verdadeira dialética, acontece quando comparecem no palco da História todas as classes principais –tal como o Tao também reúne quatro princípios, dois positivos e dois negativos, o mesmo que os Quatro Elementos. Esta dialética é muito mais rica, significativa e promissora do que o “materialismo dialético” marxista -que até tinha a sua razão de ser no Velho Mundo, onde se assistia o “fim da História”, já que as Civilizações uma vez formadas, apenas decrescem desde a luz para as trevas, ou do espírito para a matéria. O dualismo “esquerda” e “direita” reflete este materialismo final veteromundista, que hoje deve se converter na dialética “superior” e “inferior” –o vórtice ascendente novomundista-, para no futuro dar lugar à dualidade “interior-exterior” no mundo-todo, ou ecumênica (do grego oikumene, “todas as partes”), sob a luz das grandes sínteses, relacionada às duas hierarquias custódias da nova raça: asekha e choham.
O conceito dialético da História foi formulado por F. Hegel, um dos inspiradores de K. Marx e de outros teóricos dos movimentos sociais recentes, porém Hegel era um filósofo maior e não se limitou ao “materialismo”. A filosofia dialética completa segue quatro etapas (a última delas relacionada à Matese, que significa proposta, sistema) que inclusive pode ser relacionada às estruturas sociais, e na relação abaixo incluímos este fatores:

REGIÃO ......... POLARIDADE ........ DIVISÕES ......... ORDEM ........ DIALÉTICA
Velho Mundo ... Esquerda/Direita .... Dualismo ....... 2 Classes .... Tese/Antítese
Novo Mundo .... Superior/Inferior ... Dialética ...... 4 Classes ...... Síntese
Mundo Todo .... Interior/Exterior ... Dualidade ...... Coordenação .... Matese

Tal como o dualismo veteromundista acha-se defasado (o que não impede haver atavismo e conflito entre as situações), e a dualidade mundial ainda não existe, esta dialética atual está, todavia, ainda em construção neste momento, porque temos apenas uma das classes superiores em voga, que é a nacionalista, faltando ainda a espiritualista que apenas começará a se organizar no final deste século XXI -ver adiante sobre o Calendário social.

Estes atores já estavam presentes nas guerras e revoluções do século XX. O conflito de valores é maior na dialética, pois abrange divergências entre nações, ao passo que o dualismo revolucionário é mais interno. A verdadeira síntese apenas se vislumbra à medida em que a dialética amadurece, porque no começo ele ainda tem muito de antítese residual. O intercâmbio de influências é grande, tanto é assim, que os focos e os pólos podem se alternar. As revoluções aconteceram acertadamente mais no Velho Mundo, porém as Guerras Mundiais também tiveram lá o seu foco principal, até mesmo a Terceira Guerra que foi “fria” e se estendeu a todos os Continentes.
Neste século XXI as guerras seguirão mais localizadas, e surgirão novas estratégias sociais, até pela força das circunstâncias, mas também começa a entrar em cena novos recursos da Tradição de Sabedoria. No século XXII começarão a recrudescer estes conflitos e se irá optar mais por negociações. No século seguinte começará a concórdia universal e a PAX será alcançada no mundo, sob a luz de uma dualidade sã voltada para a síntese e a matese.
Assim, para usar a figura social das “Leis de Manu”, é como se a Eurásia recente devesse tratar apenas das pernas e dos pés do Manu -isto é, da burguesia e do proletariado-, porque as outras estruturas sociais –as mais nobres e elevadas- estavam virtualmente atrofiadas nos seus melhores valores.
No Novo Mundo, de forma diferente, se recomeça toda uma nova construção social, e dentro de seu ciclo peculiar (pois o processo formativo é menor): já é hora de pensar no conjunto social pleno. Assim, é preciso valorizar amplamente hoje o “espírito alternativo”, os porta-vozes de valores mais elevados, e integrá-los à vida social plena. O próprio fato destas classes deterem tendências out sider, já seria uma garantia do seu dinamismo interno e do seu poder transformador. Claro que elas também estão sujeitas à queda e ao esvaziamento, deixando só a sua casca, mas isto é coisa que não se espera acontecer tanto neste processo de construção-refinamento social, e sim no seu oposto.
Vemos historicamente, com efeito, a forma como tais forças sociais dinâmicas e “alternativas”, ligadas aos austeros guerreiros e aos refinados espiritualistas, têm reformado profundamente sociedades decaídas ao longo dos tempos.

O novo mo(vi)mento social: calendários


Para chegar ao nosso momento atual, caberia fazer uma recapitulação do ciclo no qual estamos diretamente inseridos.

Baseado no tradicional Calendário Cronocrator, tão usado pelos Antigos, sabemos então que cada ciclo social tem 200 anos, dentro deste período sócio-formativo -já constando em livros acadêmicos modernos, dada a sua notória base científica-, posto que as Idades do Mundo são um outro assunto, embora também empreguem “remotamente” as mesmas bases sociais.
Contando desde a “Descoberta” americana, os períodos dos ciclos sociais são estes:

1500-1700: “proletariado” ............................. Elemento Terra

1700-1900: “burguesia” ................................. Elemento Água
1900-2100: “nacionalismo” (atual) ................ Elemento Fogo
2100-2300: “espiritualismo” .......................... Elemento Ar
2300-2500: “síntese pró-civilizatória” ........... Elemento Éter

A partir disto, o Projeto-Exodus apresenta uma análise do atual ciclo social terciário ou nacionalista (que é o elemento central, acima), em seus três sub-ciclos de 60 anos, sob a regência do Elemento Fogo, o Terceiro Elemento. Os três Signos ou Estações ígneas deste Elemento, que são Áries, Leão e Sagitário, definem as três formas de organização social deste ciclo. Vejamos, daí:

1900-1960. A primeira parte está regida pelo signo marcial de Áries, dominada pela ordem-da-caserna, pois os militares é que implantaram o novo regime e regeram este primeiro terço do ciclo nacionalista, no qual tiveram que despender, inclusive, grandes esforços para abafar as revoltas daqueles que não aceitavam a mudança do regime, já que na prática este ciclo era mais republicano do que popular.
1960-2020. A segunda parte está regida pelo signo solar de Leão, dominada pela ordem-partidária, pois os políticos é que implantaram este segundo terço do ciclo nacionalista, no qual ainda vivemos e que determinou o amadurecimento do novo Estado social, inclusive criando uma Capital própria (Brasília), como sempre acontece nos sucessivos ciclos sociais do Brasil.

2020-2080. A terceira e última parte do ciclo nacionalista, estará regido pelo signo filosófico de Sagitário, denotando uma época de filósofos e viajantes, organizando uma ordem alternativa que valorize a Natureza, pois este signo homem-cavalo ou centauro combina estas duas dimensões e determina uma transição espiritual. A ordem-mística é que fundamentará este novo momento da nação, das escolas filosóficas e das comunas rurais de guerreiros da luz, suas tribos e aldeias sagradas, dentro de uma sociedade pós-Estado semi-anárquica -e novamente isto será alcançado pela união dos aspirantes por esta Nova Ordem de beleza e liberdade.

“Pós-Estado” significa empregar a máquina estatal para fins mais nobres e elevados, cabendo daí todo um esforço em aperfeiçoá-la e torná-la “leve”, já não pela força e nem pela diplomacia, mas pela persuasão inteligente e pela estratégia da mobilização social, utilizando-se nisto dos seus dons de formadores-de-opinião junto ao povo e ao Estado. Estas novas forças “filosóficas” atuarão na forma de custódias do Estado, aconselhando e protegendo os bons governantes, além de exercerem uma supervisão in loco sobre os atos dos governos em geral, organizando-se em paralelo com o Estado como militantes permanentemente mobilizados, e não como militares ou como políticos.
O Projeto-Exodus propõe, daí, como fórmula de resgatar e aperfeiçoar o Estado, a observação de três questões essenciais, a saber:

1. Sufrágio Universal

2. Equilíbrio demográfico
3. Supervisão popular

Em 1932, ocorreram as primeiras eleições diretas no país, para a população masculina. Esta foi, pois, a grande característica e a marca do primeiro sub-ciclo “republicano” e nacionalista.

Cabia, porém, também modernizar o país e apurar a sua segurança. O crescimento da população urbana foi então alimentado pelo êxodo rural, incrementado pelo processo de industrialização iniciado na década de 50, de modo que já na década de 60 se inverteu a proporção demográfica campo-cidade, existindo portanto ali ainda certo equilíbrio. Depois disto, contudo, as coisas saíram totalmente do controle, e se chegou no ano 2 mil com um índice de urbanização de 81%, tendo o Brasil algumas cidades enormes e até imensas, com problemas proporcionais.

É preciso hoje sanar esta grave situação que compromete a governabilidade das cidades e do país, através de um processo migratório inverso e organizado rumo aos campos e aos grandes interiores semi-desérticos do país. Deste equilíbrio dependerá não apenas a harmonia social, como também a capacidade da sociedade realizar uma supervisão eficiente sobre os atos do Estado, coisa que fica comprometida quando existe gente demais ou gente de menos nos lugares e ambientes.


Da obra "Noozonas - Bases da Noosfera", Luís A. W. Salvi

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