domingo, 25 de janeiro de 2015

Soberania ou luta-de-classes? As visões emancipatórias de Dois Mundos




O conflito social é uma realidade que o marxismo procurou transformar em ciência, visando especialmente a “emancipação” revolucionária da classe trabalhadora explorada; num enfoque distinto ao de Hegel –tido comumente como “o grande filósofo da Modernidade”- que propugnava mais a “mobilidade social”, numa visão mais ampla e universal -quiçá algo idealizada- de dinamismo social.
Marx queria os trabalhadores tivessem “como classe” o seu quinhão nas riquezas produzidas pela burguesia moderna internacional, sem esperar pela boa vontade dos patrões e nem contar com instrumentos menores de pressão como são as greves e os boicotes.
Contudo, o conflito “de civilizações” e a exploração colonial passam ao largo das explanações marxistas. Por isto, ao longo dos tempos alguns autores têm afirmado que esta leitura sociológica -assim como as suas prescrições revolucionárias-, pouca aplicação possui no Novo Mundo, dado o seu caráter expressamente europeizante.

Marx e seus colegas observaram a organização econômica e social da Europa vinda especialmente da Idade Média. Seus pontos imediatos de análise eram o Iluminismo e a Revolução Industrial, onde se organizou em definitivo a Burguesia e as relações patronais com o proletariado industrial, depois que o Feudalismo teve a sua completa extinção e o Mercantilismo foi absorvido pela industrialização, onde o foco das relações sociais foi definitivamente transladado para as cidades.
Para melhor apoiar as nossas colocações, temos abaixo o quadro da “desconstrução social” europeia decorrente ao “ritmo” bissecular, conforme a leitura comumente realizada nos meios acadêmicos (incluindo símbolos e análises estruturais de “nossa” lavra), na qual Marx enfatiza a importância geral da força revolucionária da “burguesia”, ainda que os primeiros fundamentos das estruturas capitalistas globalizadas tenham sido colocados por classes sociais não exatamente burguesas -aquelas que Marx declara terem sido relegadas ao passado pelo atroz dinamismo industrial burguês-, como foram os Templários introduzindo o sistema bancário (com juros, inclusive) durante as Cruzadas sob a vigência da “teocracia” medieval globalizada, e depois do Mercantilismo internacional promovido pelas coroas colonialistas durante o grande período realista europeu.*


Assim, a análise marxista pouca atenção deu para o fenômeno colonial per si. Talvez Marx não julgasse do interesse dos trabalhadores europeus terem as fontes de matéria-prima reduzidas ou encarecidas, uma vez que as indústrias empregam “matérias-primas vindas das regiões mais distantes”, enquanto as “novas necessidades reclamam para sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas e dos climas mais diversos”, diz o seu “Manifesto Comunista” em sua apologia à criação do mercado global pela burguesia, “para desespero dos reacionários (de quem) ela retirou à indústria sua base nacional”, completa. E segue desfilando a sua cumplicidade com a ótica burguesa eurocêntrica, modernista, urbanista e industrial, assim como predatória, xenófoba, poluente e colonialista.
Esta industrialização desnacionalizante a custo alcança beneficiar os países destinado a serem explorados para suprir a fome galopante das contínuas revoluções produtivas da burguesia. Naturalmente, a distribuição da riqueza não é um processo homogêneo entre as nações, e sequer dos meios de produção. Ainda hoje as tecnologias-de-ponta deixam de ser repassadas ao Terceiro Mundo e afins, supostamente dado seu custo maior.
De modo que o transplante puro e simples de ideologia e da metodologia marxista tampouco cabe automaticamente no Novo Mundo. Como falar de luta-de-classes quando as classes sociais sequer estão ainda realmente constituídas? Existe um prazo e um processo para tal coisa acontecer, que não pode ser menor que um milênio em termos gerais, falando apenas em termos de formação (vide os geocronogramas inseridos nesta matéria).

A rigor, a Europa herda amplas influências da Antiguidade, de modo que integra um contexto multimilenar de evolução. Além de uma completa formação social, a Eurásia teve também a oportunidade de se expressar muitas vezes como civilização ativa e integrada.
É claro que uma parte disto foi repassado ao Novo Mundo, com todas as suas contradições inerentes, o que apenas possibilita falar porém sobre uma legítima possiblidade de sucessão e de renovação de civilizações. A influência da “Antiguidade” nativa e dos povos remanescentes, dão uma cor local e enriquecem esta identidade particular com referências importantes.
Esta análise dual não toca tanto aos Estados Unidos da América e Canadá, que foram uma base ativa do Iluminismo no Novo Mundo, servindo de pivô para concentrar os interesses sociais emergentes e também os focos religiosos oriundos da Reforma protestante.
Comparativamente, a colonização ibérica da América Latina esteve basicamente atrelada ao ideário Renascentista e, através dele, também ao medieval, face a forte influência da Igreja sobre as monarquias católicas.
Em função disto, o procedimento colonial ibérico não avançou muito facilmente além do Mercantilismo. Não haveria neste caldo-de-cultura mais antigo um ímpeto tão poderoso em torno do materialismo e da prosperidade, no dizer de Max Weber, e tampouco uma forma de evangelização tão desenraigante e preconceituosa. Pelo contrário, os franciscanos e os jesuítas mantinham certo respeito à cultura nativa, coisa que ajudou a fomentar a escravidão negra com seus vínculos islâmicos. Na Guerra Guaranítica, os seguidores de Loyola apoiaram os índios e sua Ordem foi expulsa do Continente; os franciscanos então os substituíram naquilo que fosse necessário para atender a população local.

O neo-colonialismo capitalista, é uma forma daquele universo Iluminista/Protestante mais setentrional, podar e ceifar as forças destas sociedades íbero-americanas mais meridionais que sustentam a Igreja; unindo como sempre “o útil ao agradável”. E assim se configura a opressão moderna: transversalmente.
A contraparte passiva disto está na colonização afroasiática. Ambos os mundos se deparam com conflitos ante a macro-burguesia global. O neo-colonialismo invadiu todas as partes alheias ao Iluminismo, e o eurocentrismo moderno cedeu parte do seu espaço para o norte-americanismo.
As relações que o Primeiro Mundo mantém com o Terceiro Mundo são de trabalho e exploração, filtrando e manipulando as necessidades dos pobres dentro e fora das suas fronteiras, canalizando-as para serviços intrafronteiriços bem-remunerados e para atividades insalubres extrafronteiriças mal-remuneradas.
Deveríamos pensar que esta atitude “híbrida” dos norte-americanos compromete o curso de sua evolução para quaisquer propósitos? É bem possível, e para a S. B. Eubiose os EUA foram proscritos de participar da evolução racial árya, mais exatamente na sua dimensão espiritual. Contudo -e falando em “raça”-, seria também de se perguntar o que seria do mundo caso os EUA não tivessem forças para comandar os Aliados na Segunda Guerra Mundial. Como seria afinal este mundo dominado pelos poderes do Eixo? Difícil saber, temerário imaginar. Uma coisa, porém, parece certa: o “eixo” da Civilização permaneceria na Europa por muito mais tempo... Deste modo, podemos tentar pensar que os EUA podem ter até alguma tarefa estrutural precursora nesta transição continental, que comporta afinal de contas, também uma mudança de tempos planetários. 


Outro ponto a destacar, é que o ideário modernista acolhido pelos EUA concede a este país não apenas uma inclinação democrática mas também certo dinamismo social, tal como propugnava Hegel e que condiz com as premissas da “boa sociologia”, que deve ser observada especialmente nas sociedades-em-construção, mesmo ao preço de uma riqueza colonialista presente nos setores produtivos da nação. Neste aspecto, a chegada de um Presidente negro (que fez gestos históricos como reatar as relações com Cuba) ao poder soaria algo a ser mais saudado do que de um Presidente de origem proletária, posto que a questão étnica é mais autêntica no Novo Mundo do que a questão social em si, a qual serve apenas para desviar a atenção dos verdadeiros problemas nacionais que é a ingerência exterior ou a “herança colonial”.

Conclusões

Assim, apenas nas sociedades soberanas e consolidadas podem surgir as lutas de classes. Porém, nas sociedades em construção existe basicamente uma luta unida por emancipação e soberania. O quadro é pois muito distinto. Nas novas sociedades sequer existem classes realmente consolidadas, mas em formação. Desde que começou o trabalho no Novo Mundo, os séculos trazem conquistas sociais morosas, mas reais: escravidão ontem... servidão depois... serviço hoje... E no futuro: colaboração e finalmente integração.


Quando existe a opressão de uma classe sobre outra fala-se da necessidade delibertação, e quando não se deseja sequer classes (como fazem os utópicos) se fala delibertarismo. Contudo, quando há necessidade de liberação ante contextos mais amplos como é o colonial ou do cativeiro, um termo comumente usado é “livramento”, comum no contexto bíblico por exemplo.

Vimos que os marcos bisseculares das revoluções euroasiáticas pautam os ciclos sociais na região. No Novo Mundo, porém, estes processos podem se mostrar mais afáveis, porquanto não se busca um inimigo interno (“luta-de-classes”). No desenho abaixo, demonstramos a forma inversa como sucedem os ciclos sociais no Novo Mundo e mais especialmente no Brasil, onde são acompanhados pela mudança das Capitais Federais através das amplas regiões visando reambientar ou reacomodar a sociedade em transformação, evitando assim seja os conflitos como a estagnação.


Atualmente se vive o final da “Fase 3”, a formação da aristocracia (para usar uma palavra antiga e até deturpada) nacionalista, centralizada na Região Centro-Oeste do país, com suas três características centrais: guerreira, política e filosófica, marcando respectivamente as três gerações deste ciclo social ou suas “Três Repúblicas”.** Este Nacionalismo comporta a matriz do socialismo nativo fraternalista, e doravante também abrigará o ambientalismo social que se faz necessário -isto é: a socialização da cultura sustentabilista, que fundamentará a Terceira República a emergir no século atual.


Face esta necessidade de integração e construção, todo excesso de ideologismo soa quase a um pecado separatista ali***, uma forma paradoxal de alienação para quem luta pela unidade interna para vencer o verdadeiro tirano, o seu algoz e predador exterior...
Sabendo disto, os opressores tratam de disfarçar como podem os seus atos, especialmente implantando títeres nas nações. Seguem nisto um velho ditado: “a melhor arma do diabo é fingir que ele não existe”. A democracia é a melhor forma de iludir politicamente as massas cativas, embaladas pelo pão-e-circo cotidiano. Mas quando as coisas finalmente saem do controle, basta incendiar a população temente com o alarmismo e implantar algumas Ditaduras militares para remover os sonhos de liberdade e as ilusões de soberania real.
Se o desafio da Europa tem sido basicamente interno desde que o Islã deixou de ser uma ameaça real lá no século X, limitando-se desde então amplamente aos ajustes entre as classes sociais, o desafio da América Latina é quase duplo, porquanto necessita forjar as suas próprias etapas sociais e ainda enfrentar o opressor externo.
Durante a Guerra Fria, as forças do velho Socialismo europeu substituíram as do Nacionalismo, e depois da Queda do Muro estas tendências forâneas perderam o seu viço restando não obstante o discurso -e portanto a demagogia, criando uma autêntica expressão de populismo-, incluindo não obstante de maneira oportunista e totalmente extemporânea velhos dogmas de materialismo e de luta-de-classes... O custo disto é a sustentação política de um “proletariado” socialmente inerte vivendo às custas da exploração ambiental e da repartição de rendas com a classe média, uma vez que não se quer tocar os interesses dos poderosos que detém os meios de produção e pagam impostos, mesmo que pela simples exploração de comoditties -a nefanda matéria-prima que o discurso proletário tanto combatia internamente. Com isto o “socialismo” apátrida fecha o seu ciclo, atestando a sua completa contraprodução local, sustentado sob um rol inestimável de maquiagens estatísticas e medidas paliativas

Com isto não estamos a afirmar que o marxismo tenha sido uma completa falácia, apenas que o seu tempo tem acabado até mesmo na Europa (como provam os fatos) e que nas Américas ela jamais teve vez, restando todavia suas cascas e reminiscências. Este tipo de refugo ideológico (ou neo-marxismo, como dizem alguns) não tem real lugar na Europa, onde se assumiu antes a Social Democracia a ele aparentado, que tampouco possibilita verdadeiras mudanças estruturais e com o qual as forças de Centro novomundistas possuem simpatia.

Contudo, o enfrentamento com as diferentes tendências alienígenas também é parte do crescimento e do parto do Novo Mundo, semelhante ao desprendimento de um filho das ingerências nem sempre sábias dos pais e até de confrontos que por vezes acontecem.
O Nacionalismo lutou e seguirá lutando contra as ideologias forâneas alienadoras de esquerda e de direita, inclusive agora que somente o Nacionalismo é capaz de levantar idoneamente a bandeira da sustentabilidade, uma vez que seu ideário abriga naturalmente a defesa da qualidade-de-vida e do uso racional e social dos recursos naturais. Também deverá propor e fomentar a retomada da organização e da ocupação das novas regiões sob esta pauta sócio-ambiental, até para desafogar a atrofia econômica e populacional causada pela Ditadura Militar capitalista na região Sudeste onde está centralizada, coisa que hoje acarreta em problemas seríssimos face a dimensão das megalópoles ali edificadas, fragilizadas sob as drásticas mudanças climáticas em curso, também produto das engendrações industriais da grande burguesia internacional, protegidas pela força de armas terminais.
Esta seria a dialética própria do Novo Mundo, e com ela surge as suas próprias sínteses – grandiosas, com certeza! O Velho Mundo é reducionista: ele explora outros mundos para nutrir interesses algo setoriais, pese carregar toda a herança de uma Civilização. E o Novo Mundo é ampliador, quando busca a sua liberdade visando um todo, num projeto novo de Civilização aberto e por construir.
Que cada um tome pois a sua posição neste cenário cada vez mais claro de antagonismos e de mobilizações, que incluem não obstante o cenário de duas grandes utopias: uma quantitativa e singular no Velho Mundo, e outra qualitativa e plural no Novo Mundo.

* Foi portanto apenas com a Revolução Comercial e depois com a Revolução Industrial, que a burguesia realmente emergiu com plenitude econômica e dominação social, não obstante dizermos que o grande estopim para as transformações sócio-culturais europeias aconteceu com a traição e perseguição eclesial e da coroa francesa aos Templários, o que levou esta Ordem aos braços dos países ibéricos, fiéis à Igreja mas que os acolheram até por dívida histórica face seu papel nas guerras de libertação peninsular contra os mouros, preparando daí as grandes descobertas que se sucederam nos séculos posteriores a partir da Península Ibérica sobretudo.
** Com o recente resgate dos Calendários Sociais conhecidos desde a Antiguidade, cujas bases estão apoiadas pela História e pela Ciência, como ilustrados mais acima, a Antropologia Estrutural pretendida por Claude Levi Strauss pode ser finalmente levada às suas últimas consequências. O mesmo se pode dizer das colocações sobre as “raças” culturais suscitadas por Fabre d’Olivet e das raças-raízes pela Sociedade Teosófica.
*** Com relação ao anarquismo a questão parece ainda mais grave, já que esta ideologia é comumente mais radical, não fosse por isto mesmo quase utopia. No velho Mundo onde também tem origem, o anarquismo pode auxiliar a quebrar a rigidez das estruturas sociais, porém no Novo Mundo o discurso desestrutural pode castrar e prejudicar a edificação e a estabilização das bases sociais e o papel do Estado ali necessário. A própria Minarquia (ou Estado Mínimo) com que certos anarquistas simpatizam, serve aos interesses dos liberais capitalistas. 

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