quinta-feira, 3 de março de 2016

Porque o Brasil consegue se ferrar sozinho, sem ajuda estrangeira?

Combatentes da Guerra de Canudos (1897)
Volto a este assunto apenas para desenvolver melhor alguns tópicos: o nosso país nunca alcança vitórias sociais definitivas, sequer localizadas, porque o Estado sempre conclama as forças nacionais para combatê-las. E isto substitui na prática a intervenção internacional, mas acaba quase como sendo o mesmo, e um problema que países de menor porte não precisam muitas vezes sofrer –coisas que em parte justificariam as aspirações separatistas de alguns estados da nação.
Vamos agora a outros tópicos para refletir.



Revolução russa, 1917

1. Outras grandes nações fizeram revoluções! Sim, e daí se pergunta: como fizeram os grandes países que realizaram revoluções?? Aqui caberia observar que, por regra geral, as revoluções apenas podem surgir quando existe um treinamento incidental do povo em armas, através de alguma guerra externa. No Brasil, o mito do país-de-paz (entre tantos outros que o completam, como o do não-racismo) mantém o povo alienado das coisas. E se as coisas realmente chegar a um grau de tensão no país, a ameaça de intervenção externa pode se tornar real, como ocorreu em 1964 no Brasil, sob o golpe militar mascarado de “revolução”.

Os golpistas de 1964
2. O estrangeiro realmente não participa? Na verdade o estrangeiro já está presente todo o tempo, diluído e poderoso na própria máquina do Estado e no cotidiano das pessoas. Já faz muito que o imperialismo estuda forma para prevenir revoluções, e a mais eficaz delas é justamente manipulando e administrando golpes e revoluções a seu favor, como ocorreu entre nós desde a proclamação da República. As revoluções republicanas são os maiores golpes-de-marketing da burguesia na História moderna do planeta. Uma vez consolidado o golpe, a chamada “ordem de direito” pode retornar, seja porque as instituições terão sido já suficientemente minadas, seja porque é melhor para os negócios, evitando revoltas e instabilidades, através do mito da democracia representativa da cultura de massas.


Chacina de Vigário Geral, 1993

3. A revolução ou guerra civil não acontecerá no país? Muitas vezes as nossas lideranças sociais preferiram abdicar a aceitar a Guerra Civil, como ocorreu sob João Goulart e talvez com Dom Pedro II. Contudo, é mister saber que o Brasil sempre fez a Guerra Civil preventiva, através da chacina cotidiana de pobres e negros por exemplo. Mesmo que o crime organizado seja muitas vezes armado, ele não possui substrato ideológico para buscar uma revolução. Ademais, as ideologias sociais estão em crise no planeta todo, e aquilo que vaga e lentamente a vem substituindo está muito mais relacionado ao ambientalismo e à uma “cultura de paz”.



4. Existem alternativas à vista? Alternativas à violência da revolução social foi uma opção de muitos desde os primeiros tempos da Guerra Fria. E os horizontes atuais da crise ambiental trazem maiores perspectivas de uma revolução cultural progressiva do que realmente social e violenta. Se formos capazes de perseguir as raízes e as origens da democracia nas sociedades de médio porte (ao invés da utopia da microsociedade ou da ilusão da macrosociedade), através do fomento da cidadania em nossas cidades mais humanas, é possível que alcancemos criar ilhas de esperança que podem pouco a pouco podem contaminar toda a nação. Talvez até convivamos por muito tempo com o fantasma do golpe e da perseguição, caso avancemos para algo mais digno e humano, mas este pode ser um preço a pagar no aprendizado de ser humano.
O primado da meso-revolução -que é a revolução cultural, não comportamental e nem civilizatória-, tem sido a grande chave das mudanças duradouras das sociedades através dos tempos, porque sintetiza todas as coisas. 

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* Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
Editorial Agartha: www.agartha.com.br
Contatos: webersalvi@yahoo.com.br 
Fones (51) 9861-5178 e (62) 9776-8957

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