segunda-feira, 16 de março de 2015

A Teologia da Libertação e a Teologia do Livramento



A Teologia da Liberação é uma corrente da teologia política que busca aprimorar a consciência social junto às populações carentes, especialmente nas áreas rurais e nas periferias das grandes cidades onde o abandono pelo poder público é mais pronunciado. As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) seriam as células deste movimento, inspirado no Concílio Vaticano II e da Conferência de Medellin (1968).

A Teologia da Liberação acredita que as propostas das ciências sociais –tais como as emanadas da Europa, pese vazias de transcendência- sejam instrumentos válidos para a transformação social cristã, razão pela qual as posições políticas desta teologia têm sido amiúde denunciadas por padres e intelectuais ligados à Igreja e outras correntes cristãs.
Devido à influência marxista inerente, esta ideologia sofreu na raiz com a chegada ao papado de um ferrenho opositor do marxismo na pessoa de João Paulo II, quem ajudou a sepultar a União Soviética no final século passado. Também se atribui o debilitamento desta Teologia à mudança do contexto político, uma vez que nasceu sob o regimes-de-exceção da América Latina.
Uma das origens menos conhecidas da Teologia da Liberação está na obra “Da esperança” do escritor e ex-pastor protestante Rubem Alves (ao lado), obra que tinha por título original justamente “A Teologia da Liberação”, substituído a pedido do editor. Nesta obra escrita nos Estados Unidos, Alves apresenta ideias e propostas importantes, apesar da dificuldade de penetração no ambiente latino-americano dominado pelos católicos.
São ideias como os povos colonizados não terem uma história própria e estarem anexados à história alheia, e propostas como a criação ex-nihilo de novas comunidades cristãs. Mencionamos a isto porque elas também se integram intuitivamente à nova Teologia do Livramento, onde recebem uma função natural, axiológica & estratégica. Uma característica central da obra de Alves é a discussão entre “messianismo humanístico” e “humanismo messiânico”, onde se declara pelo primeiro, e que não deixa de ter relações com a cultura profética do Espírito Santo.
O último costuma ser atribuído por sua vez a certas visões sociais materialistas, acarretando em contradições e reducionismo teológico, como diria o papa Francisco. O humanismo é em si problemático por ser antropocêntrico, o ser humano não pode se julgar “a medida de todas as coisas”, sob pena de termos toda a forma de corrupção, como acontece hoje sob o materialismo vigente.
A ideia materialista da “libertação” é basicamente político-econômica, mas a noção holística de “livramento” é sobretudo ontológico-existencial. O livramento trabalha com o conceito de cativeiro a ser superado pelo afastamento do aprisionador, distinto da ideia de opressão econômica e luta-de-classes onde ainda existe o reconhecimento da legitimidade daquelas relações sociais, apesar de conflitivas, sob um tácito pacto de territorialidade. Quando o livramento envolve um êxodo intranação, pode caber substituir a ideia do “estranho” pela do alienado. O livramento visa a consciência da unidade da nação, ainda que inclua a denúncia da ignorância e da alienação.


Além dos esforços pelo livramento, o peregrino ainda tem em vista uma reconquista, pois considera que tem sido retido em zona de opressão social e impedido de conhecer o seu destino histórico, por forças interessadas também em se apoderar –através de dupla-espoliação- da sua força-de-trabalho e também dos seus territórios naturais, os quais ele tem porém por sagrados e insubstituíveis, parte de seu destino alienável.

A Ontologia da História

A princípio, a teologia é uma expressão da sociologia e vice-versa. As nações emergentes empregam a teologia para afirmar demiurgicamente o novo modelo de humanidade buscado pelos tempos. E a ela apelam ademais em busca de forças e de identidade ante as crises e pressões que padecem.
Contudo, uma verdade não pode ser forte o suficiente se amparada apenas sobre ideias e opiniões, por mais nobres e antigas que sejam. Uma verdade deve ser universal e historicamente revelada, para além do fórum dos indivíduos, a fim de superar as sombras do voluntarismo, permeado comumente por tendências ambíguas ou destrutivas. A História deve ser testemunha de si mesma.

Assim, mesmo em relação aos movimentos político-sociais da Europa, nós sabemos enxergar legitimidade através da necessidade de cumprir in totum os requisitos e os compromissos sociais daquela civilização. Percebemos porém que a exegese humana na captação das ideias nem sempre é transparente, deixando margem para radicalismos fantasiosos e incabíveis. A ideia da eliminação das classes sociais, por exemplo, deve ser substituída pela “simples” superação dos entraves –já de berço- para a ascensão social das pessoas. Outros equívocos importantes ocorrem em torno de termos como “materialismo”, etc.
A Teologia do Livramento está amparada sobre uma Ontologia da História. É o próprio curso natural das coisas –sempre universal e à imagem de toda a vida existente- quem testemunha sobre si, podendo haver cursos sociais novos/construtivos (como o americano) e cursos civilizatórios antigos/desconstrutivos (como o europeu). Nestes processos sempre se misturam todas as forças da História, podendo haver pendências para uma ou para outra corrente social a depender das circunstâncias.
Aqui não existe porém a ideia do fatalismo –no tocante às dinâmicas naturais-, apenas da organização ou da organicidade das coisas, dentro da lógica construtivista coletiva. E ao tratar de construtivismo, naturalmente no vemos na esfera dos ciclos naturais (donde os ricos calendários sociais hoje disponíveis ao país) e, com eles, também perante a ideia de destino.
Uma sociedade antiga, é como um adulto dotado por seu elevado poder de autonomia, e que com o tempo vai sofrendo os males naturais da velhice, podendo nisto padecer interferências ou necessitar ser auxiliado. A grande carga de experiência acumulada possibilita aqui novas experimentar dinâmicas com segurança.
Já uma nova sociedade, é bem como uma criança com sua nutrição e sobretudo educação peculiar, em torno da qual se constroem diversos círculos-de-colaboração (sobretudo família e escola), nem sempre justos e adequados é verdade. Como na lenda do anjo-da-guarda, comumente as novas nações recebem protetores e orientadores especiais, visando o avanço da cultura mundial (os jovens são amiúde porta-vozes de novos potenciais), cabendo também considerar os alicerces míticos da formação da consciência das nações.
As grandes nações que tem protagonizado revoluções naturalmente possuem um papel histórico pluralmente assinalado. Os resultados retumbantes facilmente atravessam fronteiras e até continentes. Tal coisa resulta muito da existência de uma antiga comunidade-de-nações de mútua identificação.
Há porém países novos onde coisas importantes também acontecem, porém isto é tido sem maior impacto e tratado como algo natural e espontâneo, buscando-se minimizar sua importância. Seriam processos de efeito mais interno, e que ainda podem sofrer mudanças ao sabor dos ventos, imagina-se.
Ninguém quer dar muita bola pelo fato de uma criança aprender algo. Às vezes porém surgem crianças excepcionais que chamam a atenção de todos, talvez temerariamente. Assim ocorreu ao Brasil, nação grande e naturalmente rica, que a certa altura despontava soberana. Nações assim carregam consigo continentes, então os poderosos do mundo trataram de cortar as suas asas, buscando até inverter a situação.


A ação da Ditadura no Brasil foi mais crônica do que aguda, tardando mais de 20 anos para terminar. O país foi usado como “base permanente” para controlar a região. Apenas o Paraguai teve ditadura mais antiga no Cone Sul, talvez por ser um país central tido como estratégico, além de vulnerável por sua pobreza e isolamento.

O Brasil antes da ditadura era um, o Brasil depois da ditadura é outro. Ontem era um país alegre, rural e seguro, com personalidade e identidade, apesar das mazelas. Agora é um país triste e perigoso, acéfalo e perdido, restando quase apenas problemas.
O fluxo da evolução do país estagnou perigosamente. O país que antes usava o seu território como um amplo leito sobre o qual a sua história de desdobrava através dos séculos, tendo como foco de coordenação suas Capitais Federais resituadas região-após-região, voltou a ser centralizado no Sudeste assim inchado econômica e demograficamente, deixando à míngua o destino natural da nação para esta terceira etapa social que é o Centro-Oeste.
É como se ideólogos entendessem o papel simbólico da nova região para formar uma nova cultura no país. O livramento deve trabalhar para restaurar este fluxo. A ontologia nacional sustenta a sociologia e a teologia do país.

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