sábado, 25 de abril de 2015

A flecha da Evolução: em busca de uma Sociologia Holística



Nas origens tudo era perfeito e íntegro, dizem as lendas da Criação.
Para a mentalidade antiga, algo somente existe realmente quando se estabelece num plano de estabilidade, plenitude e de harmonias naturais. Afinal, como dizer que as coisas estão bem quando existe luta-de-classes e colonialismo, em perpétuo estado de transformação?

Todo processo de desconstrução é reducionista –isto é evidente até semanticamente.* Sempre que colocamos abaixo um velho edifício estamos perdendo muita coisa, comumente ele está belamente ornamentado e construído com técnicas interessantes, ainda que mofado, descascado, apodrecido. Acima de tudo, ele representa uma época do mundo, com suas virtudes e vilanias, quiçá nem melhor ou pior que o presente. A pressa e a ânsia de ocupar os espaços nos levam porém a ignorar estes valores -e o mesmo sucede no campo social.


Aparentemente, estamos promovendo através da revolução a justiça e a igualdade, e em boa parcela é correta a visão da antiga deturpação das coisas, pese haver também interesses ideológicos ou pessoais e visões-de-mundo conflitantes em pauta. Neste caso, as acusações de “superstição”, “alienação” e “exploração” sempre vão muito além da conta, e como na nau de Jonas o vagalhão leva por terra (ou por água) justos e inocentes ocupando o mesmo barco.
Nem sempre uma classe social tem a experiência da outra, geralmente isto só acontece quando existe ascensão social –esta pérola rara procurada pela boa sociologia-, ou seja, onde o “maior” abarca o “menor “através do próprio crescimento cultural.
Algumas pessoas imaginam, porém, ser necessário eliminar as classes sociais para haver igualdade, sem entender a profissionalização que costuma existir por detrás destas categorias, relegando daí tudo ao mais raso amadorismo. A ditadura da classe ou a ditadura da anti-classe não faz muita diferença, cabe superar as ditaduras. A única meta legítima é eliminar os privilégios e as prerrogativas não conquistados pela própria pessoa e, é claro, aquilo que aflige a liberdade alheia.
Este é pois um dos males em parte inevitáveis dos grandes ciclos de transição, quando se acumulam os vícios de toda uma história pretérita, além do desgaste assinalar o próprio cumprimento de funções ou missões históricas. A situação de “terra arrasada” a que as revoluções remetem a História é assim um carma, mas também assinala a possibilidade para algo novo nascer. Regra geral, porém, este novo tende a surgir alhures, como semeadura de novas sínteses e através de novos partos. E neste “novo” já não existe um carma passado, apenas o do próprio futuro por despertar.

A Tradição Holística


A Wipala boliviana
Toda nova sociedade demanda uma visão integral de humanidade.
A Sociologia Holística será uma novidade? Jamais! A palavra “sociologia” até pode ser mais ou menos recente, porém os temas de que são objeto são imemoriais. Há muita coisa neste mundo que se data em função do seu registro, mas esta é uma ilusão. A cultura ágrafa foi tão ou ainda mais rica e longeva do que a cultura gráfica.**
Contudo, as dificuldades do trato social são igualmente antigos, de modo que a sociologia antiga integra as doutrinas que foram codificadas em bloco através de sínteses para se perpetuarem no imaginário popular. Os mitos de Criação facilmente podem ser entendidos em termos sócio-holísticos!
O Holismo (do grego holos, “todo”) costuma ser representado pelo arco-íris, símbolo de uma edificação cultural e também da integridade humana. Se faz presente na iconografia e na heráldica, e a bandeira de Cuzco (aquela de que o “Movimento LGBT” se apropriou, talvez invertendo as cores) o expressa basicamente, assim como a Wipala boliviana. Isto faz sentido, uma vez que não existe arco-íris sem vapor d’água.
Toda a reta civilização ostenta uma meta irisada para poder ascender tanto quanto lhe for possível. A imagem materialista da cultura pertence unicamente às sociedades dos finais de ciclos que podem se dar ao luxo de nisto refletir por contar já com um amplo leque de opções. Porém as novas sociedades em criação necessitam estar abertas ao todo para que este possa lhe abençoar e achar guarida como cabe.


O arco-íris é um símbolo comum da aliança de Deus com a humanidade, e a exegese clássica entende que a “nuvem” é também o arco: “(...) a glória do Senhor apareceu na nuvem” (Ex 16:10), coisa que se repete nas profecias: “E aquele que estava assentado sobre a nuvem meteu a sua foice à terra, e a terra foi segada” (Ap 14:16); sob a profanação do Templo, a “nuvem de glória” (Shekinah) abanda o local (Ez 10ss).

Os termos se associam originalmente na expressão “arco nas nuvens”, em Genesis 9:13-16, onde o arco-íris é apresentado como chave para a liberação perpétua do dilúvio: “Então me lembrarei da minha aliança, que está entre mim e vós, e entre toda a alma vivente de toda a carne; e as águas não se tornarão mais em dilúvio para destruir toda a carne.” (v.15)
O dilúvio pode ter muitos significados, mas sociologicamente se refere à cultura-de-massa, isto é, a atrofia e o paroxismo do “humanismo” através da superpopulação e o domínio da cultura vulgar. As “águas” sempre simbolizaram a humanidade -ver Apocalipse 17:15.

Interessante é que aquilo que realmente produz a cultura-de-massa (“dilúvio”) é o capitalismo-materialismo, posto que os valores dominantes almejam multiplicar os “consumidores”. A culminação da desconstrução cultural, que surge com as doutrinas capitalistas e materialistas, levam naturalmente o mundo de volta ao caos. E o caos dispõe as bases para uma nova ordem. São as “águas primordiais” de onde é tirada a Criação, as mesmas águas que concedem a espada Excalibur ao rei Arthur para abalizar o seu reinado, através da Dama do Lago como símbolo da República. 
O bom rei é sempre melhor do que o bom presidente, mesmo porque o trono é mais estável do que o mandato. Cada vez mais parece infinitamente mais sábio e barato manter um rei-estadista no governo dentro de uma nação unificada, do que infindáveis quadrilhas partidárias se revezando famintas por roubar o quanto podem durante o seu prazo no poder, disputando o país e dividindo e sociedade abrindo os flancos para o opressor. Esta é a percepção das sociedades emergente que devem se libertar do colonialismo, distinto das nações antigas (que são ou foram elas mesmos imperialistas) e que deixaram atrás as monarquias depois que estas cumpriram longamente a sua função cultural e estabilizadora.

A Recriação da Luz

A Criação é a celebração da diversidade da vida, atuando em uníssono para gerar a riqueza do Universo.
Toda Criação significa tirar a ordem do caos através da organização dos elementos antes misturados. À primeira vista, o tema reporta a uma anarquia (a bandeira anarquista é negra), onde não se toleram as classes sociais como vimos mais acima.

Balestra de arco-íris
Porém também se pode entender com isto a República e a própria Democracia, quando a ordem natural é substituída por um igualitarismo aparente, mas na prática o que temos é uma grande demagogia, cuja base está em derrubar a ordem idealista para depois estabelecer a exploração social e econômica a todo custo –o que obviamente é muito mais dramático nas sociedades colonizadas e em formação. E o império da demagogia apenas pode conduzir ao caos.
Por fim, acaso não podemos considerar uma monarquia também como um caos, quando ela se transforma na sua sombra -a tirania? É o que diria Aristóteles sobre a corrupção destes sistemas sociais. Não existe ordem na rigidez, um relógio não marca horas quando inexiste alma para contemplar.
O “arco-íris nas nuvens” era a condição para não haver mais dilúvio ou caos. As nuvens são um símbolo de elevação das águas, trespassadas assim pelos elementos mais refinados, especialmente a luz e o vento, simbolizando o idealismo e a espiritualidade protagonizados com excelência pelas classes idealistas (aristocracia e clero).
Porém, as classes refinadas, por sua própria natureza, não podem se limitar a atuar com os instrumentos materialistas e massivos, como revoluções e eleições. Toda elevação da consciência demanda a preparação de ambientes naturais para emergir. Os Falanstérios e as Machus Pichus não representam daí uma simples opção, mas necessidades imperativas para propiciar qualidade-de-vida e estados elevados de consciência onde a cultura possa se elevar e subsistir.
A elaboração de nobres ambientes para a educação, representa uma base segura e necessária para conferir a qualidade da consciência e o desenvolvimento da integridade humana. Com isto não estamos evocando na verdade privilégios especiais, como seria o luxo das cortes decadentes. Quase todo o contrário, pois às vezes poder contar com as bênçãos da Natureza, a segurança de um lar digno e a simplicidade do Universo se torna uma coisa rara... 


Estamos pois bem mais próximos de evocar as bases pedagógicas de Rousseau quando vê na Natureza as condições para o florescimento do “bom selvagem”. Cabe daí socializar estes ambientes o tanto quanto seja possível, disponibilizando para que todas as crianças tenham a oportunidade de crescer em meios adequados para a sua dimensão cósmica potencial.
A reordenação desta ordem natural, hierarquizada sim porém sem privilégios apriorísticos, antes balizada unicamente pela própria vocação, está ligada à consumação do Reino de Deus -isto é, do Todo-, uma ordem que não tenha apenas a economia por meta e sim a própria integridade humana. Pois se a exploração social é um grande mal, o roubo covarde, bárbaro e ignaro da autoridade natural não representa seguramente um mal menor para todos e para cada um...
Aludimos pois a sistema sociais holísticos, quiçá antigos. Para chegar a isto cabe um esforço intelectual e espiritual consistente, assim como uma perspicaz arqueologia cultural. Seria importante encontrar modelos históricos, de preferência em sociedades ainda “vivas”, onde os traços culturais se mostrem mais ativos. E tal coisa pode ser encontrada, mais que qualquer outro lugar, e sintomaticamente, através do chamado Sanatana Dharma, a “Lei Eterna”, que é o nome oficial do Hinduísmo.
O Chakravartin
Esta busca de “ambientes” para uma educação permanente, tem sido levada a cabo de forma holística através das instituições sociais do Brahmanismo, quando instituiu os ashramas ou ambientes sócio-pedagógicos, requalificando as próprias instituições para prover a evolução da consciência, através da escola, do lar, da administração e da espiritualidade naturalista. Tais ambientes proveriam daí os fundamentos culturais das classes sociais, codificadas idealmente através de elevados padrões, de tal sorte que aquilo que alguém alcançasse com excelência realizar determinaria o seu estágio espiritual e, eventualmente, também o seu estado social (varnas)
Com o tempo muito desta pureza e sabedoria se perdeu, como seria mesmo de esperar, invertendo-se as correlações e determinando as castas-de-nascimento (jativarna); sem perder de todo os ashramas (com exceção do estágio cultural do sudra ou servidor, é verdade). Contudo, nada, absolutamente nada, impede que se volte a elaborar sistemas íntegros desta natureza, uma vez que, como dizem os orientais, “a roda da lei deve ser ciclicamente recolocada em movimento ” - uma tarefa especial do Chakravartin.
Mesmo porque, o sistema em questão, embora holístico, não esgotou os seus potenciais institucionais, especialmente na esfera mais alta dos sacerdotes (brahmanes) uma vez que a iluminação ou liberação verdadeira (mukti) ainda não estava acessível à humanidade então, coisa que não obstante já pode ser alcançada na Nova Era.

* Falando em semântica, o que significa “revolução”? Não se trata de uma anti-evolução, mas sim de “ato de revolver”, do latim revolutio ónis. A revolução “revolve” a cultura, e por definição o faz em tempo curto e até tragicamente quando se trata de política, sem que na cultura tampouco deixa de envolver elementos dramáticos de transformação. E numa livre-semântica, podemos ver “reevolução” tanto como “nova evolução" (re-evolução) como “contra-evolução”, isto é, desconstrucionismo, ainda que os materialistas sejam adeptos da evolução natural.
** O registro sistemático passou a existir em função de motivos como contas econômicas, apologia a conquistas e, sobretudo, perda da memória viva. Também se poderia acrescentar o acúmulo e a difusão de conhecimentos em sociedades massivas.

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* Luís A. W. Salvi é autor polígrafo com cerca de 150 obras, e na última década vem se dedicando especialmente à organização da "Sociologia do Novo Mundo" voltada para a construção sócio-cultural das Américas.
Editorial Agartha: www.agartha.com.br
Contatos: webersalvi@yahoo.com.br 
Fones (51) 9861-5178 e (62) 9776-8957

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