terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

As duas grandes correntes do Socialismo


No século XX vimos florescer duas grandes correntes descritas naturalmente como “socialistas”. Cada uma delas se expressou com maior excelência em cada hemisfério do globo -ou no Velho Mundo e no Novo Mundo.
A primeira delas deriva -sem muitos rótulos-, do marxismo e almeja o comunismo, como praticada basicamente na União Soviética e prevalece na China e em alguns pequenos países.
E a segunda destas correntes principais ajustou-se ao Nacionalismo, comum na Américas Latina e também em outras regiões do mundo com menores consequências.
Também rotulada foi a Social-Democracia, surgida na Europa central e que, não obstante, jamais se declarou “socialista”. Pelo contrário, veio como uma forma de “ajustar” as lutas sociais “de esquerda” com a democracia e os próprios interesses capitalistas.
O socialismo marxista -uma utopia governado por intelectuais que tentam criar uma “cultura proletária” baseada no bem comum- possui poucas afinidades com esta corrente européia, contudo o Nacionalismo muitas vezes se aproximou dela devido ao caráter não-radical, não-classista e não-materialista do próprio Nacionalismo, pese a natureza também híbrida da Social-Democracia no Novo Mundo.
Alguém quererá talvez refutar que o Nacionalismo possui menos legitimidade para ostentar este título do que o marxismo. Isto seria falso, porque os nacionalistas buscam a visão de todo –do próprio Estadismo-, de modo que melhor do que ninguém eles sustentam a ideia social do coletivo integrado.
O socialismo marxista é classista, redutivo, globalista (embora a presença do racismo não possa ser negligenciada nas nações marxistas), proletário, velhomundista e materialista, ao passo que o socialismo nacionalista é integrador, holístico, autonomista (embora haja tendências solidárias entre as nações nacionalistas), aristocrático, novomundista e idealista. Enquanto enfatiza o marxismo discurso de classes rigidas, o nacionalismo visa eliminá-las paulatinamente.
Contudo, também ocorreram formas pervertidas de Nacionalismo, como foi o Nazismo, ele que justamente se declarava Nacional-socialismo, porém sucumbiu a posições extremas de xenofobia, tema que comumente surge de forma oportunista visando escravizar povos e nações.
A análise dos contextos históricos destas sociedades explica muita coisa sobre as pertinências ideológicas.

Ideologias: remédio ou veneno?

As ideologias possuem vocações naturais, são como medicamentos sociais e eventualmente idem servir e também como veneno. O uso inadequado de um remédio o transforma naturalmente em veneno. Infelizmente, por má fé ou por ingenuidade, é comum o transplante indevido das ideologias para regiões onde elas não cabem.
O marxismo surgiu na esteira de um longo processo histórico de desconstrução sócio-cultural na Europa, ao qual de certa forma concluiu. Por haver esta descontrução obviamente houve a certa altura um constructo acabado, que não obstante se cristalizou em castas rígidas e sem maior legitimidade, fundadas mais na “tradição” do que em funções culturais dinâmicas e criativas. A própria existência destas classes mais idealistas como o clero e a aristocracia, apenas acontece porque existe uma estrutura social produtiva e comercial de base. Então, as revoluções materialistas ocorridas desde a Revolução Francesa, apenas empoderam estas classes voltadas para a cultura material, de uma forma todavia muito perigosa para a cultura mundial e a estabilidade ambiental do planeta.
Dada a sua profunda extemporaneidade, o marxismo jamais conseguiu se firmar com maior força nas Américas, como chegou a acontecer com o Nacionalismo. Não cabe a nações em formação fomentar “lutas de classes” -quando sequer se possui classes bem desenvolvidas ainda-, isto representaria debilitar a nação e abrir os flancos para o imperialismo. Depois da Guerra Fria então, a sua possibilidade fica praticamente extinta, ainda que o sistema tolere o neo-marxismo cultural, uma vez que a força revolucionária disto tudo está tão abalada e ainda ajuda a alienar as militâncias esquerdistas com ideias socialmente inócuas.
Quanto ao Nacionalismo, é um verdadeiro alimento para as nações em formação e uma defesa ativa contra todas as formas de colonialismo. O Nacionalismo bebe naturalmente dos mitos e do romantismo para firmar a sua identidade cultural e forjar a nação. O Nacionalismo romântico teve um papel chave da obra de Hegel, inspirador do fascismo (a busca pelo Estado heróico ou aristocrático) mas também do marxismo por outras vias, tidas como ideologias “neo-hegelianas”.
As variações das ideologias sociais integram geralmente a esfera ampla da Aristocracia, que é a terceira classe social “clássica” –a nobreza d’alma-, associada ao governo social e ao ensino espiritual. Mais tarde ela virou sinônimo de luxo e de ostentação, depois que as monarquias se consolidaram perdendo o seu vigor renovador. Definimos a sua estrutura tríplice como guerreira-política-filosófica.
O Nacionalismo novomundista representa um proto-aristocracia -ou aristocracia-em-formação, faltando organizar apenas a sua essência filosófica: tarefa para este século XXI. O Fascismo, por sua vez, significa uma pós-aristocracia, tal como o Nazismo é um nacionalismo atrofiado.
O Nacionalismo surge na Europa já na era dos reis que constituíram os Estados-nações desde a baixa Idade Média até o Renascimento, sob o florescimento do mercantilismo que acabou apoderando a burguesia. As sociedades buscavam a sua unidade e identidade, contra a hegemonia da Igreja, a pulverização feudal e até as invasões árabes.
Os movimentos de Independência as nações empregam estes recursos para se fortalecer. Apenas quando uma nação se torna forte e poderosa, além de racialmente homogênea e consolidada, pode haver risco de xenofobia contra outros povos. Neste momento, o Nacionalismo deve passar a ser tido como uma simples reserva do Universalismo, uma fonte para beber e nutrir-se nas suas eventuais crises-de-identidade e mesmo de valores.
Por isto ele também pode se tornar um veneno em nações muito consolidadas. Depois da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha trazia um forte rancor por haver sido endividada e despojada do seu passado imperial e colonialista, ficando em desvantagem em relação a outros importantes países europeus -que inclusive distribuíram entre si as antigas colônias alemãs. Num contexto destes, o fomento do Nacionalismo pode representar pólvora pura, sendo natural porém surgir em contraste com o capitalismo invasor. Algumas nações foram algo refratárias aos modernismos. A Alemanha por suas fortes raízes naturalistas, a Itália com seu catolicismo e o expansionismo japonês, formaram as forças míticas do Eixo –que de algum modo comportavam núcleos socializantes- que deram origem à Segunda Guerra Mundial, empregando o nazi-fascismo e o nacionalismo para tentar reverter as tendências materialistas do mundo.

O Nacionalismo Novomundista

Vale então uma análise das posturas do Nacionalismo latino-americano nestes conflitos, sobretudo o sul-americano que conhecemos mais de perto.
O Nacionalismo social foi vigoroso na América Latina, tendo como pivô o caudilhismo através da formação histórica guerreira destes povos em suas lutas pela conformação das fronteiras coloniais e depois pela independência. Contudo, nem sempre os caudilhos conseguiram realizar mudanças estruturais internas. Não raro eles foram apenas usados pela burguesia para se emancipar das pressões colonialistas, em conluio porém com novas formas de colonialismo.
Foi o caso clássico de Simon Bolívar, que quando pretendeu começar as reformas internas dos países libertos, foi sumariamente tirado de cena. O mesmo tema foi imortalizado no paradigmático filme “Queimada”. Desta forma a burguesia solapou os “aristocráticos” interesses sociais das novas nações, dando margem para o fortalecimento do marxismo, que é seu fruto natural e com o qual ela convive melhor face o comum materialismo, levando o Continente de volta ao colonialismo.
Como a tendência nacionalista era forte na Alemanha, ocorreu uma aproximação entre estes países, e o mesmo se pode dizer da Itália, agregada pela colonização recebida destes povos durante os séculos XIX e XX. Neste contexto, porém, o Brasil emergia como uma nação forte e mais independente.
O Nacionalismo social brasileiro, implantado por Getúlio Vargas –chamado também de “caudilho” por haver promovido uma revolução social no país-, jamais flertou com ideologias radicais, xenófobas ou fascistas, da mesma forma que afirmou a sua natural ojeriza ao marxismo. O getulismo foi adversário do Integralismo, uma facção nazi-fascista brasileira que, apesar de fazer apologia do indigenismo romântico, primava igualmente pelo racismo. Ao contrário de outras nações da sua zona, o Brasil pouco hesitou a entrar na Segunda Guerra junto aos Aliados, porém tratou de negociar para isto novos marcos na sua independência econômica.

Novamente, contudo, o imperialismo deu o seu golpe, quando as mudanças sociais finalmente queriam apontar para questões estruturais. João Goulart e Salvador Allende eram porta-vozes destas mudanças pelas vias democráticas, ainda que Allende possuía formação marxista.
Com o final da Guerra Fria, o marxismo foi quase varrido do Ocidente, pese a resiliência corrosiva do marxismo cultural de Gramsci perdurar de forma oportunista nestas nações socialmente destruídas pelas ditaduras, sobretudo o próprio Brasil onde a ação sócio-desconstrutiva foi lenta e sistemática. Nisto, foi o próprio Nacionalismo, inimigo comum do dualismo materialista burguês-proletário, a primeira grande vítima desta Guerra não-declarada e nem sempre tão “fria” que inaugurou a era da guerra tática e estratégica no mundo.
Hoje o mundo redesperta assombrado com os rumos das coisas, dos escombros sociais tentam emergir novas mentalidades, por vezes simples refugos dos desvios culturais, outras vezes reminiscências de culturas originárias, entremeadas pelas aspirações ambientalistas e holísticas que surgiram também como contraponto alternativo à Guerra Fria e que hoje também repensam as suas ações, que não deixam de possuir funções sociais e até nacionalistas –a defesa da terra também é uma defesa do homem-, seguindo todas as análises acima apresentadas. E as pessoas terão que discernir entre o que é realmente melhor para si –a ideologia “melancia”, o ambientalismo holístico e outras que possam aparecer.

O futuro certamente será “verde” –será que as ideologias surgem apenas para compensar as nossas perdas?


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