terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Quando a Velha Ordem cair



A Velha Ordem “modernista” cairá por diversas razões, e se assim não fosse ela não cairia.*
Existem questões consideradas “clássicas” como a revolta dos povos colonizados, a indignação dos explorados internos do império e a insatisfação das pessoas esclarecidas de toda parte, sempre associado à decadência dos valores e dos costumes.
A “gota d’água” será a questão ambiental, que tampouco representa nenhuma novidade, já que desde que existe a sedentarização este assunto é coisa sensível na humanidade, a qual tem muitas vezes deixado atrás de si desertos e a desolação.
As estruturas coloniais se debilitarão - serão atacadas, boicotadas, abandonadas ou ruirão. As sociedades exploradas, colonizadas ou insatisfeitas farão pressão para se apoderar destas estruturas.
As guerras clássicas são porém um dos fatores de maior evidência nas dinâmicas de apoderamento (guerra colonialista) e eventual queda e debilitação (guerra anti-colonialista, invasões, revoluções, etc.).


Dinâmicas de renovação

Quando ocorrem movimentações sociais, algumas forças capitais atuam para instar, organizar e direcionar estas situações.

Os impulsionadores são os guerreiros (função militar).
Os organizadores são os políticos (função social).
Os orientadores são os filósofos (função intelectual)

Naturalmente todas estas coisas podem ou devem se achar mais ou menos entremescladas, sejam dentro de cada pessoa, grupo ou mesmo entre elas.
A título de esclarecimento, vamos apresentar as seguintes analogias com a Trimurti indiana:

a. Brahma, o Criador ................ os filósofos
b. Vishnu, o Preservador .......... os políticos
c. Shiva, o Destruidor ............... os guerreiros


Não seria difícil tentar “dar nome aos bois”, porém tal coisa serviria apenas como exercício intelectual ou de “futurologia”.
Ocorrerão invasões e não se pode prever exatamente de que direção ou dimensão. Porém isto não significa que serão tão dramáticas como são as ocupações colonialistas ou alguma política de terra arrasada que sucede mais entre inimigos crônicos (delenda Carthago), e sim algo mais libertário e desestabilizador como fizeram os chamados bárbaros através da História; afinal o enfraquecimento dos impérios sempre facilita as rebeliões internas nas nações colonizadas.

Chico Xavier teria trazido “informações” sobre a possibilidade de ocupações mundiais em todo o Hemisfério Sul após 2019, caso estoure uma nova Guerra Mundial e o Hemisfério Norte se torne praticamente inabitável. Porém isto não pode ser considerado realmente uma “profecia”, mas simples análises intelectuais de tendências, sujeitas inclusive a discussões sobre a coerência geopolítica dos enunciados, e onde a crise ambiental entra apenas na esteira da Guerra e não como fator das ações anti-ecológicas sistemáticas como tem acontecido (verdade é, contudo, que a crise ambiental deriva das ações de Estados belicistas).**
Assim, pode haver invasões, mas aquilo que mais deveríamos considerar é o próprio livramento das pressões colonialistas, tendo estas sim como as verdadeiras forças invasoras a serem afastadas. Quando os bárbaros derrubaram Roma ou a China, eles não estavam exatamente invadindo território estranho.

Algumas vezes os bárbaros apenas atacaram para debilitar as estruturas-de-poder, esperando que os setores insatisfeitos da população fizessem o resto. Alguns invasores foram por isto tidos pelos povos como libertadores.
Outras vezes trataram de renovar, reformar ou até desconstruir a administração dos impérios, dando maior liberdade às nações. A chamada “noite medieval” se deve em boa parte à ordem desconstrutiva imposta pelas sociedades bárbaras à Europa, conjugada com as ideias fraternas e monoteístas do Cristianismo tidas na época como revolucionárias e agregadoras.

As categorias críticas que se costuma usar para ler este período são meramente aquelas ditadas pela burguesia, as quais os filósofos materialistas admiradores da burguesia “compraram” sem rever, porque acharam que assim lhes convinha, o que representa todavia uma falácia porque a burguesia não é nenhuma tutora intelectual isenta ou inconteste do proletariado ou de qualquer outra categoria social.
Contudo, a conjugação medieval da ordem guerreira-espiritualista, é muito distinta da “dialética” materialista moderna centralizada no duo burguesia-proletariado. 

Quando terminarmos de colher os males produzidos por esta última –males talvez de uma extensão jamais concebíveis sobre o planeta Terra, e que sabemos não deverá tardar a serem conhecidos-, já não teremos receio de pesar cada coisa como realmente merece.

As forças da reconstrução

Assim, o melhor seria limitar-se a avaliar as dinâmicas internas das nações sob um quadro de livramento que de novas invasões. 


Caso estas aconteçam a situação poderá não ser muito diversa, uma vez que dificilmente existem invasões sem renovação e mudanças interfaciais.
Por esta razão trataremos de dar nomes locais aos nossos “bois”. Para isto voltamos também às categorias antes nomeadas: guerreiros, políticos e filósofos.

“Guerreiros”. Diversas facções politizadas urbanas e rurais se fortaleceriam e tratariam de ocupar sítios e fazendas (por sua vez os proprietários também poderão “abrir” as suas terras para os movimentos sociais), assim como as pequenas cidades e bairros de cidades grandes. Não haverá para onde fugir -dirão-, ou nos inserimos nos novos paradigmas ou seremos destruídos. Os diversos grupos visarão os seus chamados "alvos-táticos". Vândalos e anarquistas, em especial, fariam o papel de “novos bárbaros”, e poderão disseminar o terror e o medo nas cidades grandes para que as pessoas abandonem estes locais desumanos, estéreis e artificiais. Não se pode porém ignorar a força do crime organizado, que teria poder de dominar facilmente bairros e pequenas cidades, e eventualmente ensaiar atividades politizadas (como já acontece mesmo mais do que se imagina), afinal estas duas coisas facilmente se intercomunicam. Os riscos da atuação das máfias também devem ser considerados nesta hora, servindo de desafio para todas as categorias da renovação.

“Políticos”. Além dos guerreiros mais politizados, existem certas militâncias políticas inovadoras, associadas ao socialismo e ao ambientalismo, que podem atuar dentro e fora de partidos. Também seria de esperar o ressurgimento de forças nacionalistas, como uma síntese apurada destas tendências, através de uma forma de “nacional-ambientalismo” por exemplo. Dando ordem e corpo social consistente às atividades iniciais dos guerreiros, os políticos fariam assim o novo discurso social para as populações nos bairros, vilas e cidades, cuidando dos meios-de-comunicação e demonstrando as novas formas de economia popular e ambientalista. Naturalmente a demagogia se infiltrará sob muitas formas, e aqui entra o papel crucial da categoria seguinte.


“Filósofos”. A função da filosofia é dar direção para as coisas. O ser humano tende a atuar de maneira instintiva e impulsiva, sem maior reflexão e conhecimento-de-causa. O desequilíbrio e os radicalismos são males que comprometem o resultado das ações humanas. A missão da filosofia é harmonizar para realmente progredir. O principal objetivo dos “filósofos da reconstrução” será orientar as sociedades espiritualmente, mas nisto eles também buscarão influenciar os guerreiros e os políticos. Os novos filósofos são ecumênicos e ambientalistas, porém devem eles mesmos alcançar as sínteses devidas para poder auxiliar a humanidade e sair do isolamento, compreendendo o avanço das tendências religiosas mais recentes como é o franciscanismo e socializando devidamente os seus próprios saberes, atuando em cidades sustentáveis e em comunidades alternativas sociais.

Para alcançar tudo isto, várias formas novas de organização deverão ser postas em prática. A internet seria quiçá denunciada como uma forma de monopolizar os meios de informações democráticos a serviço do "Grand Father”, de modo que as pessoas retornariam aos poucos para os meios independentes de comunicação como é o rádio amador, a correspondência física, pombos-correio, etc.
O dinheiro será abolido e substituído pela troca e a doação. Como o supérfluo e o acúmulo serão descartados, juntamente com a cultura-de-massas, tampouco haverá razão moral para a existência do dinheiro.
Assim, a verdadeira Nova Ordem aos poucos se irá delineando, para além das quimeras dos velhos poderes corrompidos do passado.

* O termo “velha ordem modernista” ainda pode servir para comunicar aquilo que se pretende para as pessoas em geral, que é a futura transição para o pós-contemporâneo sob uma possível queda do capitalismo. Nas divisões usuais das Idades derivada dos historiadores franceses, estamos da Idade Contemporânea desde a Revolução Francesa, havendo porém outras visões -ver aqui, de onde citamos apenas isto: “A época moderna pode ser considerada, exatamente, como uma época de ‘revolução social’ cuja base consiste na "substituição do modo de produção feudal pelo modo de produção capitalista". Este “modo de produção capitalista” prossegue hoje todavia (pese os paralelos socialistas), e que os ingleses em especial abarcam sob a expressão "Tempos Modernos", a mesma usada por Charlie Chaplin no seu famoso filme. 
** Publicada postumamente em 2011 (Xavier faleceu em 2002), tratar-se-ia de comunicação feita a terceiros no ano de 1986, durante o último grande ápice da corrida armamentista, lançada pelo cowboy Ronald Reagan com o propósito de esgotar a União Soviética, no que se considera ter tido sucesso.
Na verdade, o famoso médium detalharia apenas uma América do Sul repartida entre as grandes nações desenvolvidas, citando por alto a África e a Austrália que supõe-se não obstante ter destino semelhante. Mesmo aceitando que os meridionais seriam assim tão impotentes para reagir ante nações de tal forma arrasadas, soa complicado crer num compartilhamento geral destas terras entre as grandes potencias, mais fácil seria imaginar a tendência delas meramente “atravessar o Equador” –por assim dizer- como fizeram em outras ocasiões.

Um comentário:

  1. "Com todo o meu respeito por Xico Xavier que me parece ter sido uma pessoa séria, mas, a meu ver, a velha ordem está a cair, sim, de facto, mas já se levanta uma outra: os países BRICS, os países liderados pela China que fazem parte da Organização de Xangai, que são praticamente todos os países asiáticos, o que significa mais de 2/3 da humanidade. A velha ordem está a cair, ou seja, O Ocidente, EUA, Canadá, Austrália, Inglaterra, e Europa, esta última se continuar a portar-se como vassala dos EUA, a China já é praticamente a maior potência económica mundial, e é melhor não falar do aspecto militar. É melhor começar a procurar-se informação fora dos meios habituais e canais de informação ocidentais, e provavelmente ter-se-á uma grande surpresa. Não simpatizo muito com este tipo de filosofias apocalipticas! Informação sobre os BRICS é praticamente ignorada em Portugal, país provinciano e periférico, e neste momento com dirigentes politicos que são apenas e unicamente vassalos e criados dos grandes senhores que governam o mundo. E, apesar de tudo, os povos e cidadãos europeus estão neste momento a começar a abrir os olhos e a revoltar-se." (comentário de Natercia Pedroso no facegrupo “Que futuro para a Humanidade”)

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